/

IA na Prática

"A IA ficou pior": o que realmente acontece quando o modelo muda — e o que fazer antes de trocar

"A IA ficou pior": o que realmente acontece quando o modelo muda — e o que fazer antes de trocar

Por Leo Toco

·

·

9

min de leitura

·

Atualizado em

EM RESUMO

"A IA ficou pior": às vezes é você, às vezes é a ferramenta — e há dois casos documentados pela fabricante. Os 5 passos antes de trocar.

"A IA ficou pior" é a queixa mais frequente de quem usa IA todo dia — e ela tem duas explicações possíveis, com respostas diferentes: às vezes é você, às vezes é a ferramenta. As duas são reais. A fabricante já publicou, duas vezes, o que aconteceu quando foi a ferramenta; e em sala eu vejo toda semana o que acontece quando é o uso. Este guia separa as duas, com os casos documentados e os cinco passos que resolvem a maior parte das queixas em cinco minutos.

Eu não sou advogado — sou de tecnologia, com mais de dez anos no mercado jurídico — e esta é a pergunta que mais chega na tutoria depois de "qual IA usar". A resposta curta: antes de trocar de ferramenta, teste as duas hipóteses.

Quando é a ferramenta: os dois casos documentados

A ferramenta já piorou de verdade, e a Anthropic publicou o que houve nas duas vezes. Vale conhecer os casos porque eles matam a teoria mais repetida na internet.

Quando

O que aconteceu

O que aprendemos

Agosto–setembro de 2025

Três bugs de infraestrutura degradaram a qualidade das respostas de forma intermitente: um erro de roteamento que mandou pedidos para o tipo errado de servidor (cerca de 30% dos usuários do Claude Code tiveram ao menos uma mensagem afetada), uma corrupção de saída que fazia aparecer caracteres tailandeses e chineses em respostas em inglês, e um bug do compilador. No pior momento, 16% dos pedidos de um modelo foram afetados numa hora

A própria empresa afastou a teoria de que reduz qualidade em horário de pico: "nunca reduzimos a qualidade do modelo por demanda, hora do dia ou carga". Era bug — e foi corrigido

Março–abril de 2026

Três mudanças somadas derrubaram a qualidade do Claude Code por seis semanas: o esforço de raciocínio padrão baixou de "alto" para "médio" em 4 de março para reduzir latência; um bug de cache em 26 de março apagava progressivamente o raciocínio do modelo; e uma instrução de verbosidade adicionada em 16 de abril cortou a qualidade em cerca de 3%. Tudo revertido até 20 de abril

Mudanças pequenas e bem-intencionadas, somadas, produzem uma queda que o usuário sente antes de a fabricante medir

Fontes: Anthropic, post-mortem de setembro de 2025 e cobertura do post-mortem de 23 de abril de 2026.

Duas lições que atravessam os dois casos: a queixa do usuário chegou antes da nota oficial — nos dois episódios, foram relatos de gente comum que levaram à investigação; e a API não foi mencionada como afetada no segundo caso, o que importa para quem construiu sistema próprio.

Quando é você: as quatro causas mais comuns

Na maior parte das vezes em que alguém me diz "ficou pior", a ferramenta não mudou — mudou o uso. Quatro causas respondem por quase tudo:

  1. A conversa ficou longa. Depois de dezenas de trocas, o contexto está cheio de rascunhos, correções e caminhos abandonados; a IA responde ao acumulado, não ao pedido atual. Sintoma: ela "esquece" o que você disse no começo ou mistura casos.

  2. O modelo mudou sem você perceber. Ferramentas alternam entre modelos por padrão, por plano ou por limite atingido. O que você achava que era "o Claude" pode ser outro modelo hoje.

  3. O material não foi anexado. Você pediu a mesma coisa de sempre, mas desta vez sem a decisão, o contrato ou os fatos. Sem material, resposta genérica é o esperado — não é queda.

  4. "Ficou horrível" quer dizer "não parece meu". Queixa de linguagem quase sempre é queixa de estilo: a IA escreveu certo, mas não do seu jeito. Isso se resolve descrevendo como você escreve — uma vez, e guardando.

Nenhuma das quatro é culpa sua no sentido moral. São efeitos de como a ferramenta funciona — e todas têm correção de um minuto.

Os cinco passos antes de trocar de ferramenta

Cinco minutos, nesta ordem, resolvem a maior parte das queixas — e, quando não resolvem, produzem o dado que prova que o problema é da ferramenta.

  1. Abra uma conversa nova e refaça o mesmo pedido. Se melhorou, era a causa 1.

  2. Confira o modelo selecionado. Se mudou, era a causa 2.

  3. Reanexe o material — documento, decisão, fatos. Se melhorou, era a causa 3.

  4. Descreva o seu estilo, se a queixa for de linguagem: "escrevo em frases curtas, sem adjetivos, com o pedido no primeiro parágrafo". Se melhorou, era a causa 4 — e vale guardar essa descrição para não repetir.

  5. Se continuar ruim, registre com print — o pedido, a resposta, a data, o modelo. Não é reclamação: é dado. Foi assim que os dois episódios documentados foram percebidos antes de virarem nota oficial.

O que não fazer: trocar de ferramenta no primeiro dia ruim. Toda ferramenta tem dias ruins; o que separa é a documentação do que houve.

O que isso muda para quem usa IA em peça

Para quem usa IA em trabalho jurídico, "a IA ficou pior" tem uma consequência específica: a conferência não pode depender da confiança na ferramenta. Se a qualidade varia — e os dois casos mostram que varia, sem aviso —, a única proteção é a rotina que não varia: conferir fonte, fato e forma em toda saída, sempre, como se fosse o primeiro dia. O protocolo está em como evitar alucinações da IA no Direito.

Duas medidas de gestão que decorrem disso:

  • Guarde a lista do que falhou. Não existe changelog na sua tela — a ferramenta não avisa o que mudou. A sua lista de falhas é a sua pauta de reteste: o que não funcionou hoje pode funcionar amanhã, e vice-versa.

  • Um espaço de trabalho por caso, e conversas curtas. É a correção da causa 1 transformada em hábito — e coincide com a régua de sigilo que já vale por outros motivos.

O conjunto de configurações que estabiliza o uso — modelo fixo, instruções de estilo guardadas, projetos por caso — está em Claude para advogados, e o mesmo raciocínio vale para qualquer ferramenta. É a mesma virada que organiza todo o uso de inteligência artificial no Direito: a IA vale pelo que você confere, não pelo que ela promete.

CONTINUE APRENDENDO

Formação, imersões e materiais gratuitos de IA para o Direito

Tudo o que ensinamos — inclusive os materiais abertos — está reunido em um só lugar.

Conhecer o Jurídico Ágil

PERGUNTAS FREQUENTES

O que os advogados mais perguntam

O que os advogados mais perguntam

A IA fica pior em horário de pico?

Não, segundo a própria Anthropic: no post-mortem de setembro de 2025 a empresa afirmou que "nunca reduz a qualidade do modelo por demanda, hora do dia ou carga do servidor". As quedas documentadas foram bugs de infraestrutura — e foram corrigidas.

O Claude já piorou de verdade?

Sim, duas vezes documentadas: agosto–setembro de 2025 (três bugs de infraestrutura) e março–abril de 2026 (três mudanças somadas derrubaram o Claude Code por seis semanas, corrigidas até 20 de abril). Nas duas, relatos de usuários chegaram antes da nota oficial.

Por que a IA parece esquecer o que eu disse?

Porque a conversa ficou longa: o contexto acumulou rascunhos e correções, e a IA responde ao acumulado. Abra uma conversa nova para cada tarefa — e um espaço por caso.

O que fazer antes de trocar de ferramenta?

Cinco passos: conversa nova, conferir o modelo, reanexar o material, descrever o estilo (se a queixa for de linguagem) e, se continuar ruim, registrar com print. A maior parte das queixas se resolve nos quatro primeiros.

A queda de qualidade afeta quem usa a API ou sistema próprio?

No episódio de 2026, o post-mortem tratou do Claude Code, sem mencionar a API como afetada. No de 2025, um dos bugs atingiu servidores da API. Quem tem sistema próprio deve testar com um conjunto fixo de pedidos de controle.

Como provar que a ferramenta piorou?

Com registro: o mesmo pedido, em datas diferentes, com o modelo anotado e a resposta salva. É esse tipo de dado que levou às investigações documentadas — e é o que vale numa reclamação ao fabricante.

Devo manter mais de uma IA por causa disso?

Ter uma segunda ferramenta configurada é prudente — mas a proteção real não é redundância, é conferência. Se a qualidade varia sem aviso, a rotina de checar fonte, fato e forma é o que não varia.

CONTINUE COM A GENTE

Leve o método adiante

Leve o método adiante

Imersões ao vivo e a Formação em IA aplicada ao Direito — o caminho completo está no Jurídico Ágil.

Conhecer a Formação em IA

Conteúdo educativo, em conformidade com o Provimento 205/2021 da OAB.

Leo Toco

Fundador do Jurídico Ágil, professor e consultor de IA e Gestão Ágil para o mercado jurídico. Mais de 15.000 alunos e 300+ agentes jurídicos criados.

juridicoagil.com →

NEWSLETTER SEMANAL

A análise da semana no seu e-mail

A análise da semana no seu e-mail

Os movimentos de IA que importam para o jurídico — resumidos e comentados, direto ao ponto.

Gratuita. 1 e-mail por semana — cancele quando quiser.