"A IA ficou pior" é a queixa mais frequente de quem usa IA todo dia — e ela tem duas explicações possíveis, com respostas diferentes: às vezes é você, às vezes é a ferramenta. As duas são reais. A fabricante já publicou, duas vezes, o que aconteceu quando foi a ferramenta; e em sala eu vejo toda semana o que acontece quando é o uso. Este guia separa as duas, com os casos documentados e os cinco passos que resolvem a maior parte das queixas em cinco minutos.
Eu não sou advogado — sou de tecnologia, com mais de dez anos no mercado jurídico — e esta é a pergunta que mais chega na tutoria depois de "qual IA usar". A resposta curta: antes de trocar de ferramenta, teste as duas hipóteses.
Quando é a ferramenta: os dois casos documentados
A ferramenta já piorou de verdade, e a Anthropic publicou o que houve nas duas vezes. Vale conhecer os casos porque eles matam a teoria mais repetida na internet.
Quando | O que aconteceu | O que aprendemos |
|---|---|---|
Agosto–setembro de 2025 | Três bugs de infraestrutura degradaram a qualidade das respostas de forma intermitente: um erro de roteamento que mandou pedidos para o tipo errado de servidor (cerca de 30% dos usuários do Claude Code tiveram ao menos uma mensagem afetada), uma corrupção de saída que fazia aparecer caracteres tailandeses e chineses em respostas em inglês, e um bug do compilador. No pior momento, 16% dos pedidos de um modelo foram afetados numa hora | A própria empresa afastou a teoria de que reduz qualidade em horário de pico: "nunca reduzimos a qualidade do modelo por demanda, hora do dia ou carga". Era bug — e foi corrigido |
Março–abril de 2026 | Três mudanças somadas derrubaram a qualidade do Claude Code por seis semanas: o esforço de raciocínio padrão baixou de "alto" para "médio" em 4 de março para reduzir latência; um bug de cache em 26 de março apagava progressivamente o raciocínio do modelo; e uma instrução de verbosidade adicionada em 16 de abril cortou a qualidade em cerca de 3%. Tudo revertido até 20 de abril | Mudanças pequenas e bem-intencionadas, somadas, produzem uma queda que o usuário sente antes de a fabricante medir |
Fontes: Anthropic, post-mortem de setembro de 2025 e cobertura do post-mortem de 23 de abril de 2026.
Duas lições que atravessam os dois casos: a queixa do usuário chegou antes da nota oficial — nos dois episódios, foram relatos de gente comum que levaram à investigação; e a API não foi mencionada como afetada no segundo caso, o que importa para quem construiu sistema próprio.
Quando é você: as quatro causas mais comuns
Na maior parte das vezes em que alguém me diz "ficou pior", a ferramenta não mudou — mudou o uso. Quatro causas respondem por quase tudo:
A conversa ficou longa. Depois de dezenas de trocas, o contexto está cheio de rascunhos, correções e caminhos abandonados; a IA responde ao acumulado, não ao pedido atual. Sintoma: ela "esquece" o que você disse no começo ou mistura casos.
O modelo mudou sem você perceber. Ferramentas alternam entre modelos por padrão, por plano ou por limite atingido. O que você achava que era "o Claude" pode ser outro modelo hoje.
O material não foi anexado. Você pediu a mesma coisa de sempre, mas desta vez sem a decisão, o contrato ou os fatos. Sem material, resposta genérica é o esperado — não é queda.
"Ficou horrível" quer dizer "não parece meu". Queixa de linguagem quase sempre é queixa de estilo: a IA escreveu certo, mas não do seu jeito. Isso se resolve descrevendo como você escreve — uma vez, e guardando.
Nenhuma das quatro é culpa sua no sentido moral. São efeitos de como a ferramenta funciona — e todas têm correção de um minuto.
Os cinco passos antes de trocar de ferramenta
Cinco minutos, nesta ordem, resolvem a maior parte das queixas — e, quando não resolvem, produzem o dado que prova que o problema é da ferramenta.
Abra uma conversa nova e refaça o mesmo pedido. Se melhorou, era a causa 1.
Confira o modelo selecionado. Se mudou, era a causa 2.
Reanexe o material — documento, decisão, fatos. Se melhorou, era a causa 3.
Descreva o seu estilo, se a queixa for de linguagem: "escrevo em frases curtas, sem adjetivos, com o pedido no primeiro parágrafo". Se melhorou, era a causa 4 — e vale guardar essa descrição para não repetir.
Se continuar ruim, registre com print — o pedido, a resposta, a data, o modelo. Não é reclamação: é dado. Foi assim que os dois episódios documentados foram percebidos antes de virarem nota oficial.
O que não fazer: trocar de ferramenta no primeiro dia ruim. Toda ferramenta tem dias ruins; o que separa é a documentação do que houve.
O que isso muda para quem usa IA em peça
Para quem usa IA em trabalho jurídico, "a IA ficou pior" tem uma consequência específica: a conferência não pode depender da confiança na ferramenta. Se a qualidade varia — e os dois casos mostram que varia, sem aviso —, a única proteção é a rotina que não varia: conferir fonte, fato e forma em toda saída, sempre, como se fosse o primeiro dia. O protocolo está em como evitar alucinações da IA no Direito.
Duas medidas de gestão que decorrem disso:
Guarde a lista do que falhou. Não existe changelog na sua tela — a ferramenta não avisa o que mudou. A sua lista de falhas é a sua pauta de reteste: o que não funcionou hoje pode funcionar amanhã, e vice-versa.
Um espaço de trabalho por caso, e conversas curtas. É a correção da causa 1 transformada em hábito — e coincide com a régua de sigilo que já vale por outros motivos.
O conjunto de configurações que estabiliza o uso — modelo fixo, instruções de estilo guardadas, projetos por caso — está em Claude para advogados, e o mesmo raciocínio vale para qualquer ferramenta. É a mesma virada que organiza todo o uso de inteligência artificial no Direito: a IA vale pelo que você confere, não pelo que ela promete.




