Um aviso antes de começar: sou fundador do Jurídico Ágil e trabalho com IA aplicada ao Direito, não sou advogado. Este texto mostra um método de trabalho com a IA. A estratégia do recurso, a escolha das teses e a assinatura continuam com o advogado do caso.
Por que pedir "faça a apelação" de uma vez costuma dar errado?
Porque a IA passa a escolher sozinha o que atacar na sentença, e você só descobre o que ela decidiu quando lê a peça pronta. Num pedido único, a ferramenta lê a sentença, escolhe os pontos, inventa a ordem e escreve tudo de uma vez. Se ela errou no começo (leu mal um pedido, ignorou um fundamento), o erro contamina o texto inteiro, e corrigir custa mais do que ter feito em partes.
Dividir em etapas resolve três coisas:
Você confere cada etapa antes da próxima. A tabela da sentença está certa? Só então a IA aponta o que atacar.
A decisão de mérito fica com você. A IA mapeia; você escolhe o que entra.
Cada prompt leva uma trava. "Não invente", "[CONFERIR] onde faltar dado" e "a página de cada coisa" estão em todas as etapas, não só no fim.
O mesmo raciocínio vale para qualquer peça. Se você quer o método geral, o guia de minuta com IA, com segurança mostra a mesma lógica aplicada a outros casos.
O que o CPC exige da petição de apelação?
O art. 1.010 do Código de Processo Civil lista quatro requisitos. Na redação da Lei 13.105/2015:
"A apelação, interposta por petição dirigida ao juízo de primeiro grau, conterá: I - os nomes e a qualificação das partes; II - a exposição do fato e do direito; III - as razões do pedido de reforma ou de decretação de nulidade; IV - o pedido de nova decisão."
Os 5 prompts deste texto cuidam do coração do recurso: as razões (inciso III) e o pedido de nova decisão (inciso IV), com apoio na exposição do direito. A qualificação das partes e a exposição dos fatos você completa no modelo do escritório, que já tem o padrão da casa.
Antes do primeiro prompt: o que anonimizar e o que anexar
Anonimize antes de anexar qualquer documento. Nomes, CPF ou CNPJ, número da OAB e número do processo viram código. Tire também o que identifica o caso mesmo sem nome: endereço, empresa, valor ou data muito específica. Trocar só o nome da parte não basta.
Depois:
Abra uma conversa nova no Claude (isso evita misturar com outro caso).
Anexe a sentença, a inicial e a contestação. Se houver laudo ou ata de audiência que a sentença usa, anexe também.
Mande um prompt por vez e confira a resposta antes de seguir.
Os 5 prompts, um para cada etapa
Prompt 1: o que foi decidido
Leia a sentença e as peças anexadas e monte uma tabela: cada pedido, o que foi decidido, o fundamento usado e a página. Não opine ainda. Onde faltar dado: [CONFERIR]. Não invente fato nem precedente.
O que conferir: abra a sentença ao lado e veja se cada linha da tabela bate, inclusive a página. Pedido que a IA não encontrou é um sinal: pode ser omissão da sentença ou erro de leitura.
Prompt 2: onde a sentença erra
Com a tabela, aponte os pontos que podem ser atacados: erro na análise da prova, erro de direito ou nulidade. Para cada um, o trecho e a página. O que depender de documento que você não viu: [CONFERIR]. Não invente.
O que conferir: esta é a etapa em que você decide. A IA lista possibilidades; você escolhe quais teses fazem sentido para o caso e corta o resto.
Prompt 3: nulidades, antes do mérito
Só com base nos documentos anexados, liste possíveis nulidades: cerceamento de defesa, falta de fundamentação, julgamento fora do pedido. Cada uma com o trecho e a página. Se não houver, escreva "nenhuma encontrada". Não invente.
O que conferir: "nenhuma encontrada" também é resposta útil. Se a IA apontar uma nulidade, confirme no processo se o ponto foi alegado no momento certo.
Prompt 4: as razões, ponto a ponto
Escreva as razões de reforma na ordem da tabela: o que a sentença disse, por que está errado e a prova ou o artigo de lei que sustenta, com a página. Não cite precedente nem artigo que eu não forneci; onde faltar, escreva [CONFERIR]. No fim, o pedido de nova decisão.
O que conferir: jurisprudência você pesquisa e abre no site oficial do tribunal, e só depois fornece à IA. O guia de pesquisa de jurisprudência com IA mostra como fazer essa parte sem cair em julgado inexistente.
Prompt 5: a revisão do relator mais cético
Leia as razões como o relator mais cético: aponte argumento sem prova, citação sem fonte, ponto da sentença não atacado e pedido incompleto. Não reescreva: liste.
O que conferir: cada item da lista é uma correção sua antes de protocolar. Pedir à IA que "não reescreva" mantém o controle do texto com você.
Etapa por etapa: o que a IA entrega e o que você confere
Etapa | O que a IA entrega | O que você confere |
|---|---|---|
1. A sentença | Tabela de pedidos, decisões, fundamentos e páginas | Cada linha contra a sentença aberta |
2. O que atacar | Lista de erros possíveis, com trecho e página | Quais teses entram de fato |
3. Nulidades | Nulidades possíveis ou "nenhuma encontrada" | Se o ponto foi alegado no momento certo |
4. As razões | Texto ponto a ponto e o pedido de nova decisão | Cada citação no site oficial do tribunal |
5. A revisão | Lista do que está fraco ou faltando | A correção final, feita por você |
O que os tribunais já disseram sobre IA e precedente inventado?
O STJ já puniu peças com precedentes inexistentes e deixou claro que a conferência é de quem assina. Num especial publicado em 18/10/2026 com as primeiras decisões do tribunal sobre uso de IA, o STJ relembra casos em que precedentes fictícios levaram a habeas corpus não conhecido, ofício à OAB e multa por litigância de má-fé de cinco salários mínimos. No HC 1.094.270, o ministro Rogerio Schietti escreveu:
"A tecnologia serve ao profissional, mas não o substitui nem o desobriga de conferir o que assina."
É por isso que os prompts acima proíbem a IA de citar precedente ou artigo que você não forneceu. Outro cuidado que vale para qualquer recurso: não copie para a sua peça texto de terceiros sem ler o arquivo inteiro. O guia sobre prompt injection no Direito explica o risco de comandos escondidos em documentos.
Os prompts funcionam no ChatGPT e no Gemini?
Funcionam, porque não dependem de nenhum recurso exclusivo do Claude: são instruções em texto, com o documento anexado. O que muda de uma IA para outra é a qualidade da leitura de documentos longos e o limite de arquivos por conversa. Vale rodar o mesmo caso, já anonimizado, em mais de uma ferramenta e comparar onde cada uma acerta e onde erra.
Quer aplicar isso no escritório?
Esse método de trabalhar por etapas, com trava contra invenção em cada prompt, é a base dos modelos de peça que ensinamos. Na imersão de IAs no Direito, você trabalha ao vivo com Claude, ChatGPT e Gemini e monta os seus próprios modelos de peça. Para formação contínua, a Formação F.IA leva profissionais do Direito do zero ao avançado. As turmas abertas ficam em juridicoagil.com.




