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IA na Prática

Minuta com IA: como fazer com segurança — e o que a MinutaIA do TJSP muda para quem advoga

Minuta com IA: como fazer com segurança — e o que a MinutaIA do TJSP muda para quem advoga

Por Leo Toco

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11

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Atualizado em

EM RESUMO

Minuta com IA é rascunho, não peça. As 3 conferências, os 5 sinais de minuta sem revisão e o que muda com a MinutaIA no TJSP e no Jusbrasil.

Minuta com IA é um rascunho de peça, decisão ou contrato produzido por um modelo de linguagem a partir das instruções e dos documentos que você fornece — e que só vira texto jurídico depois da conferência de quem assina. A ferramenta acelera a primeira versão; não responde por ela. Em agosto de 2026 essa distinção deixou de ser conselho e virou infraestrutura: o TJSP disponibilizou a MinutaIA aos gabinetes e, no dia seguinte, o Jusbrasil anunciou a compra da startup de mesmo nome.

Este guia é sobre como fazer minuta com IA sem virar o próximo caso do placar de sanções — e sobre o que muda quando o primeiro leitor da sua peça passa a ser um sistema que também escreve. Eu não sou advogado: sou de tecnologia, com mais de dez anos dentro do mercado jurídico, e o que ensino é método.

O que aconteceu em agosto de 2026 (e por que importa para a sua minuta)

Duas notícias em 48 horas mudaram o cenário da minuta com IA no Brasil. Em 26 de agosto, o presidente do TJSP, desembargador Francisco Eduardo Loureiro, anunciou no Órgão Especial a disponibilização da MinutaIA a magistrados, assistentes e assessores: a ferramenta lê os autos direto no eproc e no SAJ, propõe textos a partir das orientações do usuário e permite que cada gabinete monte uma biblioteca própria de modelos de decisão, prompts e legislação. A frase do presidente resume a régua institucional: "A ferramenta não tem poder de decisão. A decisão é do juiz" (TJSP).

Em 27 de agosto, o Jusbrasil anunciou a aquisição da MinutaIA, startup de redação jurídica com IA fundada em fevereiro de 2025, que informa ter mais de mil escritórios e cerca de 180 instituições públicas como clientes — entre elas, segundo a própria empresa, o TJSP — e receita recorrente anual de R$ 100 milhões. A marca, o produto e a equipe seguem separados (Exame).

Para quem advoga, a leitura é uma só: a minuta feita por IA deixou de ser vantagem competitiva e virou o padrão dos dois lados do balcão. O que diferencia agora não é usar — é conferir melhor do que a média.

Minuta com IA é rascunho ou é peça?

Minuta com IA é rascunho, sempre. A confusão entre as duas coisas é a causa direta de todos os casos de multa por jurisprudência inventada que acompanhamos no placar de sanções — TJPR, TJSC, TJMG, TRT-20, STJ. Em nenhum deles o problema foi a ferramenta; em todos, foi a peça ter saído do rascunho para o protocolo sem passar por quem assinava.

A régua que uso em sala é simples e tem três degraus:

  1. Rascunho — o que a IA devolve. Não tem valor jurídico e não deve sair do seu computador.

  2. Minuta conferida — o rascunho depois de três verificações (abaixo). Já pode circular internamente.

  3. Peça — a minuta conferida depois que quem assina leu inteira e assumiu. Só isso vai ao protocolo.

O erro mais caro do nicho é pular do degrau 1 para o 3.

As três conferências que separam minuta de multa

Toda minuta com IA passa por três conferências antes de virar peça: fonte, fato e forma. Elas não são opcionais e não são a mesma coisa.

Conferência

O que você confere

Como

Fonte

Cada julgado, lei e trecho de doutrina citado existe e diz aquilo

Abrir a fonte oficial. Um a um. Sem exceção

Fato

Cada afirmação sobre o caso está nos autos

Comparar com o documento, não com a memória

Forma

A peça tem raciocínio próprio e cumpre o que o tribunal exige

Ler inteira, em voz alta se preciso; conferir resumo obrigatório e tópicos exigidos

A terceira conferência ganhou peso em 2026. O STJ passou a exigir resumo obrigatório na petição (art. 343-A) e, a partir de setembro, tópico apartado de relevância — dois pedaços da peça que serão lidos primeiro por sistemas, não por pessoas. O guia completo do resumo, com o prompt pronto, está em resumo obrigatório no STJ. Uma minuta que não estrutura esses blocos é uma minuta que a triagem não encontra.

Os 5 sinais de minuta feita por IA sem revisão

Uma minuta feita por IA sem revisão tem cinco sinais que um leitor treinado reconhece em dois minutos — e o leitor do outro lado da mesa está treinado. Aprenda a vê-los na sua própria peça antes que outro veja.

  1. Citação redonda demais. Julgado com número, relator e ementa perfeitamente encaixados no argumento — e que não existe. A IA monta o precedente ideal quando não tem o real à mão.

  2. "Conforme entendimento pacífico" sem um único precedente atrás. O modelo afirma consenso porque consenso é a saída mais provável, não porque conferiu.

  3. Simetria excessiva. Três argumentos, cada um com três parágrafos, cada parágrafo com a mesma estrutura. Texto humano tem peso desigual; texto de máquina tem ritmo de metrônomo.

  4. Fatos genéricos. "A parte autora sofreu graves prejuízos" onde deveria estar a data, o valor e o documento. Quando o modelo não tem o dado, ele preenche com adjetivo.

  5. Doutrina de memória. Autor real citado dizendo algo que ele não disse — o caso do TJMG em agosto de 2026, em que o tribunal mandou notificar os próprios doutrinadores deturpados. É o sinal mais novo do acervo e o mais grave, porque envolve terceiro.

Se a sua minuta tem dois desses, ela não passou pela conferência de forma. Se tem o primeiro ou o quinto, ela não passou pela de fonte — e essa é a que gera multa.

Como usar a IA para revisar a própria minuta (o passo que ninguém dá)

O uso mais valioso da IA na minuta não é escrever — é revisar. E a forma mais eficaz que já vi em sala é ensinar a ferramenta com o que já deu certo na sua vara.

O método: separe três ou quatro peças suas que o judiciário já aprovou — a sentença veio como você pediu, o recurso foi provido, a contestação segurou. Elas são o seu padrão real, não o padrão genérico da internet. Com elas, você monta uma instrução de revisão (uma skill, no vocabulário que explico em skills de IA no Direito) que compara toda minuta nova com o que já funcionou: estrutura, densidade de fundamentação, tom, extensão. A IA deixa de revisar contra "boas práticas" e passa a revisar contra a sua própria história de vitórias.

Duas ressalvas de quem já viu isso dar errado: a revisão por IA complementa a conferência de fonte, nunca a substitui — a mesma ferramenta que revisa pode inventar; e depois de criar a instrução, leia a instrução. O que você pediu não é necessariamente o que ficou salvo, e é o salvo que roda em todas as próximas vezes.

O que muda quando o juiz também usa IA para minutar

Quando o gabinete minuta com IA, a peça do advogado precisa ser escrita para ser lida por um sistema antes de ser lida por uma pessoa. Não é especulação: a MinutaIA do TJSP lê os autos direto do eproc e do SAJ e propõe o texto a partir do que encontra. Se o seu pedido está diluído, se a tese aparece na página 14, se o resumo obrigatório não existe — o sistema que rascunha para o juiz vai trabalhar com uma versão pior do seu argumento.

Três ajustes práticos, que valem para qualquer tribunal:

  • Front-loading. Pedido, tese e fundamento principal nas primeiras páginas, em tópicos com títulos que dizem o que contêm.

  • Uma ideia por parágrafo. Sistemas segmentam texto por parágrafo; parágrafo que mistura três argumentos vira três argumentos fracos.

  • Números conferíveis. Datas, valores, dispositivos legais com artigo e parágrafo. É o que a máquina extrai com precisão — e o que ela não consegue inventar a seu favor.

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Advogado pode fazer minuta com IA?

Pode. Nenhuma norma brasileira proíbe — a Resolução CNJ 615/2025 regula o uso no Judiciário e a OAB trata o tema pela ética e pelo dever de revisão. O que gera sanção não é a minuta com IA; é a minuta que vai ao protocolo sem que quem assina tenha conferido fonte, fato e forma.

O que é a MinutaIA do TJSP?

É a ferramenta de inteligência artificial que o TJSP disponibilizou em 26 de agosto de 2026 a magistrados, assistentes e assessores para apoiar a elaboração de minutas. Ela lê os autos direto no eproc e no SAJ, propõe textos a partir das orientações do usuário e permite montar uma biblioteca própria de modelos e prompts. Segundo o presidente do tribunal, ela não tem poder de decisão.

A MinutaIA do TJSP é a mesma empresa que o Jusbrasil comprou?

A startup MinutaIA, adquirida pelo Jusbrasil em 27 de agosto de 2026, informa ter cerca de 180 instituições públicas como clientes e cita o TJSP entre elas. O tribunal, no seu comunicado, não nomeia o fornecedor. O que dá para afirmar com fonte é isso.

Qual é a multa por citar jurisprudência inventada numa minuta?

Depende do enquadramento: litigância de má-fé (1% a 10% do valor da causa), ato atentatório à dignidade da justiça e ofício à OAB. O acervo brasileiro de 2026 vai de R$ 990 no TJMG a 2% de uma causa bilionária no TJPR — e o caso de agosto no TJMG acrescentou a notificação dos doutrinadores deturpados.

Como conferir se um julgado citado pela IA existe?

Abrindo a fonte oficial — o portal do tribunal, com o número do processo — e lendo a ementa e o trecho citado. Não basta o número existir: precisa dizer aquilo. Ferramentas de conferência ajudam a triar, mas a conferência final é humana.

Posso usar a IA para revisar a minuta que a IA escreveu?

Pode, e é um dos melhores usos. Monte a instrução de revisão a partir de três ou quatro peças suas já aprovadas pelo judiciário, para que a comparação seja com o seu padrão real. Mas revisão por IA complementa a conferência de fonte — nunca a substitui.

Preciso avisar o tribunal que usei IA na peça?

Não há dever geral de declarar. O dever é de conferência e de responsabilidade pelo que se assina. Alguns tribunais e editais específicos podem exigir declaração — confira a regra do órgão antes de protocolar.

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Fundador do Jurídico Ágil, professor e consultor de IA e Gestão Ágil para o mercado jurídico. Mais de 15.000 alunos e 300+ agentes jurídicos criados.

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