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Justiça & Tribunais

Advogado multado por jurisprudência falsa de IA: os casos de 2026 e como não ser o próximo

Advogado multado por jurisprudência falsa de IA: os casos de 2026 e como não ser o próximo

Por Leo Toco

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Atualizado em

EM RESUMO

TST, TJPR, TJSC e TRT-2 já multaram advogados por jurisprudência falsa gerada por IA e não conferida — de 1% a 10% do valor da causa, com ofício à OAB. Os casos reais e o checklist de verificação.

Sala de audiências vazia, com bancos de madeira escura e luz baixa

Em 2026, TST, TJPR, TJSC, TRT-2 e até o TSE aplicaram multas a advogados que protocolaram peças com jurisprudência inexistente gerada por inteligência artificial — as sanções variaram de 1% a 10% sobre o valor da causa, em um dos casos sobre uma causa de R$ 1 bilhão, quase sempre acompanhadas de ofício à OAB. A regra que emerge das decisões é uma só: a responsabilidade por verificar cada citação é sempre do advogado que assina. Alegar "uso inadvertido do ChatGPT" não funcionou como defesa.

Ensino IA aplicada ao Direito há anos, para milhares de advogados, e repito em toda turma a mesma frase: a IA acelera o rascunho, mas quem responde pela peça é você. Este artigo reúne os casos brasileiros já decididos, a base legal das sanções e o checklist de verificação que uso na prática — para você aproveitar a tecnologia sem entrar para a lista.

O placar de 2026: quem já foi multado

Os casos deixaram de ser curiosidade estrangeira: tribunais brasileiros de diferentes ramos já sancionaram o uso descuidado de IA. Os mais emblemáticos até aqui:

Tribunal

O que aconteceu

Sanção

TST (6ª Turma)

Contrarrazões citaram precedentes inexistentes — inclusive atribuídos a ministros que não os proferiram

Multa de 1% sobre o valor da causa para a empresa e o advogado, por litigância de má-fé (ConJur)

TJPR (9ª Câmara Cível)

Precedente do STJ "confeccionado" por IA, não localizado no repositório oficial, em causa avaliada em R$ 1 bilhão

Multa de 2% sobre o valor da causa (JOTA)

TJSC (6ª Câmara Civil)

Recurso com jurisprudência e doutrina fictícias; advogado alegou "uso inadvertido" do ChatGPT

Multa de 10% sobre o valor atualizado da causa + ofício à OAB/SC (nota oficial do TJSC)

TRT-2 (6ª Turma)

Petição com jurisprudência falsa criada por IA

Multa de 5% por má-fé + ofício à OAB-SP para apuração disciplinar (ConJur)

TSE

Precedentes falsos em petições eleitorais

Multas por litigância de má-fé de até 5 salários mínimos (ConJur)

O padrão se repete em todos: o julgador (ou a parte contrária) busca a citação no repositório oficial, não encontra, e a peça inteira perde credibilidade — junto com o profissional.

Por que a IA inventa julgados

Modelos de linguagem geram texto plausível; eles não consultam o repositório do tribunal, a menos que estejam conectados a uma base real. É o fenômeno conhecido como alucinação: a ferramenta combina padrões de linguagem jurídica — número de recurso, nome de ministro, ementa convincente — e produz uma citação com aparência perfeita e conteúdo inexistente. Quanto mais específico o pedido ("traga julgados do STJ sobre X"), maior a chance de a IA "completar" o que não encontrou.

Conectar a ferramenta a bases reais de jurisprudência reduz drasticamente o problema — mas reduz, não zera. Mesmo assistentes com busca integrada podem misturar um julgado real com uma tese que não está nele, o que é ainda mais perigoso, porque o número do processo existe. Já comparei esse comportamento entre ferramentas no guia sobre pesquisa jurídica com o Gemini e o problema das fontes inventadas e no artigo sobre o Perplexity como buscador que cita fontes — a conclusão é sempre a mesma: fonte citada é ponto de partida da verificação, não atestado de existência.

A base legal: de onde saem multas de 1% a 10%

As sanções aplicadas até aqui vêm da litigância de má-fé do CPC — e o teto é alto. O art. 80 do CPC considera litigante de má-fé quem altera a verdade dos fatos ou usa o processo para objetivo ilegal; o art. 81 fixa a multa entre 1% e 10% do valor corrigido da causa, além de indenização à parte contrária. Foi exatamente essa régua que os tribunais usaram: 1% no TST, 2% no TJPR (que, numa causa de R$ 1 bilhão, significou multa milionária), 5% no TRT-2, 10% no TJSC.

E a multa é só a primeira camada. Nos casos do TJSC e do TRT-2, o tribunal oficiou a OAB para apuração disciplinar — ou seja, o episódio segue para o Tribunal de Ética. Em março, a ConJur registrou ainda o alerta de magistrados sobre a possibilidade de responsabilização criminal em cenários de reiteração deliberada. O custo real de uma citação não conferida, portanto, é processual, financeiro, disciplinar e reputacional ao mesmo tempo.

"Foi o ChatGPT" não é defesa

No caso catarinense, o advogado alegou que o erro decorreu de "uso inadvertido" do ChatGPT — e a 6ª Câmara Civil rejeitou a tese. O raciocínio dos julgadores é o mesmo em todos os tribunais: a advocacia é função indispensável à administração da justiça, e quem assina a peça responde pelo seu conteúdo, seja ele escrito à mão, por estagiário ou por máquina. A ferramenta não presta compromisso; o advogado, sim.

Esse entendimento ganhou uma camada institucional em 2026: o Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/SP decidiu, por unanimidade, que sócios e gestores têm o dever de garantir a supervisão do uso de IA por toda a equipe — associados, estagiários e assistentes — e que as saídas de IA devem ser revisadas por inteiro antes de irem ao processo. Detalhei essa decisão e o que ela exige na prática no artigo sobre a responsabilidade do sócio pela IA do escritório. Em resumo: além da responsabilidade individual de quem assina, agora há uma responsabilidade de gestão sobre quem lidera.

O checklist anti-multa (o que faço em toda peça)

Verificação de citação não é burocracia — é o novo protocolo mínimo de protocolo. O roteiro que ensino, e que cabe em qualquer rotina:

  1. Toda citação nasce suspeita. Julgado sugerido por IA é hipótese de pesquisa, não fonte. Sem exceção — inclusive quando a ferramenta mostra link.

  2. Confira na origem, não na própria IA. Busque o número do processo no repositório oficial do tribunal (pesquisa de jurisprudência do STJ, do TST, do TJ local). Se não aparecer lá, não existe.

  3. Confira o conteúdo, não só a existência. Processo real com tese diferente é erro mais difícil de detectar do que processo inventado. Leia a ementa inteira e, em tese sensível, o inteiro teor.

  4. Nunca protocole saída bruta de IA. Rascunho é rascunho: revisão integral, humana e documentada — o padrão que a OAB/SP agora exige dos escritórios.

  5. Prefira ferramentas ancoradas em bases reais para pesquisa — e mesmo assim aplique os passos 1 a 3. Redução de risco não é eliminação de risco.

  6. Registre a verificação. Uma anotação simples de onde cada julgado foi conferido transforma "supervisão" em algo que você consegue provar — inclusive perante o cliente e a OAB.

É esse método — usar a IA para ganhar horas sem herdar os riscos — que estruturo na formação contínua de IA para advogados do Jurídico Ágil, com a verificação embutida no fluxo de trabalho, não como etapa opcional.

O outro lado do balcão também usa IA

Enquanto advogados são multados por citações falsas, os tribunais aceleram o uso de IA para detectar padrões — inclusive peças repetidas e citações estranhas. A Berna, ferramenta nacionalizada pelo CNJ, já analisou 30 milhões de processos em 88 tribunais atrás de litigância predatória; a Resolução CNJ 615/2025 disciplina o uso de IA pelo próprio Judiciário. Mapeei esse movimento — e o que ele muda para quem peticiona — no artigo sobre IA no Judiciário em 2026. O recado prático: a assimetria acabou. Escrever com método e verificar cada fonte deixou de ser diferencial e virou requisito de sobrevivência.

A boa notícia: quem domina a ferramenta com critério colhe o ganho de produtividade e dorme tranquilo. É treinável — e é exatamente o que separa o uso profissional do uso ingênuo da IA no Direito.

Fontes: ConJur — multa no TST por jurisprudência falsa (13/03/2026) · JOTA — TJPR aplica multa milionária (jun/2026) · TJSC — nota oficial da multa por jurisprudência falsa · ConJur — multa e ofício à OAB (16/02/2026) · ConJur — erros com IA irritam tribunais e abrem risco de crime (17/03/2026) · Migalhas — OAB/SP: sócios devem garantir supervisão de IA · Resolução CNJ 615/2025

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PERGUNTAS FREQUENTES

O que os advogados mais perguntam

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Advogado pode usar IA para escrever petições?

Pode — não há vedação ao uso da ferramenta. O que os tribunais punem é protocolar conteúdo não verificado: citação inexistente, tese atribuída a julgado errado, doutrina inventada. A OAB recomenda o uso responsável, com revisão integral e supervisão; a sanção nasce do descuido, não da tecnologia.

Qual é a multa por citar jurisprudência falsa?

Nos casos de 2026, os tribunais aplicaram a multa por litigância de má-fé do art. 81 do CPC, que varia de 1% a 10% sobre o valor corrigido da causa — o TST aplicou 1%, o TJPR 2% (sobre causa de R$ 1 bilhão), o TRT-2 5% e o TJSC 10%. Além da multa, cabem indenização à parte contrária e ofício à OAB.

Quem responde: o advogado ou a ferramenta de IA?

O advogado que assina a peça, sempre. A jurisprudência que se formou em 2026 é unânime nesse ponto: a responsabilidade de verificar as informações é do profissional, e alegar que o erro foi da ferramenta ("uso inadvertido do ChatGPT") não afastou a sanção em nenhum caso conhecido.

Como verificar se um julgado citado pela IA existe?

Busque o número do processo e a ementa diretamente no repositório oficial do tribunal (pesquisa de jurisprudência do STJ, TST ou TJ local). Se a citação não aparecer na fonte oficial, ela não existe. E confira também o conteúdo: julgado real usado para tese que não está nele é erro igualmente sancionável.

O tribunal consegue detectar que a peça foi feita por IA?

Na prática, a detecção vem da conferência: julgador ou parte contrária busca a citação e não encontra. Além disso, os tribunais também usam IA — ferramentas como a Berna, do CNJ, comparam petições em escala e identificam padrões repetidos, o que aumenta o escrutínio sobre peças padronizadas.

O escritório pode ser responsabilizado pelo uso de IA de um estagiário?

Sim. O Tribunal de Ética da OAB/SP decidiu por unanimidade que sócios e gestores devem garantir a supervisão do uso de IA por associados, estagiários e assistentes, com revisão integral das saídas antes do protocolo. A responsabilidade deixou de ser difusa: ela sobe para quem lidera a banca.

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Leo Toco

Fundador do Jurídico Ágil, professor e consultor de IA e Gestão Ágil para o mercado jurídico. Mais de 15.000 alunos e 300+ agentes jurídicos criados.

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