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Justiça & Tribunais

MARIA, do STF: o que a IA do Supremo faz de verdade (e o que muda para o advogado)

MARIA, do STF: o que a IA do Supremo faz de verdade (e o que muda para o advogado)

Por Leo Toco

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Atualizado em

EM RESUMO

A MARIA do STF é interna — advogado não a usa. O que ela faz, o mapa da IA nos tribunais (Victor, Athos, Logos, Galileu) e as regras do CNJ que valem para todos.

Arquitetura modernista de Brasília: a IA já trabalha dentro dos tribunais — com supervisão humana obrigatória

Vamos começar corrigindo o que quase todo texto sobre o tema erra — inclusive a versão antiga deste: a MARIA não é uma assistente que o advogado usa. MARIA é sigla de Módulo de Apoio para Redação com Inteligência Artificial, e é uma ferramenta interna do STF: quem a opera são gabinetes e servidores, para minutar ementas e resumos. Você não vai baixá-la nem conversar com ela. O que a MARIA realmente significa para quem advoga é outra coisa — e mais importante: o seu processo, hoje, quase certamente passa por alguma IA dentro do tribunal. Este artigo mostra o mapa completo e as regras do jogo.

O que a MARIA é (de verdade)

Lançada em 16 de dezembro de 2024, a MARIA foi apresentada pelo próprio STF como a primeira ferramenta do Tribunal com IA generativa (STF). O que ela faz:

  • Minuta ementas e resumos de votos para os gabinetes;

  • Resume relatórios em recursos extraordinários e agravos;

  • Faz a análise inicial de petições de Reclamação.

Nasceu de um chamamento público em 2023; a empresa vencedora cedeu o código-fonte ao STF, que hoje mantém a ferramenta com equipe própria. E o então presidente Barroso fez questão de fixar a regra que resume tudo: a responsabilidade final pelos textos é dos ministros e servidores — a máquina minuta, o humano responde.

O que a MARIA não é: um chat público, um assistente para advogados, uma ferramenta de consulta processual. Conteúdo que ensina a “usar a MARIA na sua rotina” — como a versão anterior deste artigo — parte de uma premissa errada. O chatbot de atendimento ao cidadão que o STF mantém em canais como o WhatsApp é outra ferramenta, de outra natureza.

O mapa: quem mais trabalha com IA nos tribunais

A MARIA é a face mais famosa de um movimento muito maior. O que está confirmado e em operação:

Ferramenta

Tribunal

O que faz

Victor

STF (desde 2017)

Classifica recursos extraordinários por tema de repercussão geral

VitórIA

STF

Agrupa milhares de processos do mesmo tema em minutos

RAFA

STF

Classifica processos pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

Athos

STJ (desde 2019)

Agrupa processos por similaridade, aponta candidatos a repetitivo

Logos

STJ (fev/2025)

IA generativa própria: relatório de decisão e análise de admissibilidade de agravo (STJ)

Galileu

Justiça do Trabalho (TRT-4 → todos os 24 TRTs em 2025)

Sugere minutas de sentença com base em precedentes, sob validação humana (CNJ)

E a escala do conjunto: a plataforma Sinapses, do CNJ, reunia 150 modelos de IA ativos, de 29 tribunais, no lançamento da versão 2.0 em abril de 2026 (CNJ). Na pesquisa CNJ/PNUD, 92 dos 95 tribunais responderam, 45,8% já usam IA generativa e havia 178 projetos registrados.

A conclusão que interessa: não é mais “se” o seu processo passa por IA — é quantas IAs ele atravessa entre o protocolo e a decisão.

As regras do jogo: o que o CNJ exige dessas ferramentas

A Resolução CNJ 615/2025 (alterada pela 674/2026) é o marco que disciplina tudo isso (CNJ). O que ela fixa:

  • Cadastro obrigatório de toda IA do Judiciário na plataforma Sinapses;

  • Supervisão humana efetiva — é vedada a decisão exclusivamente de máquina;

  • Sistemas de alto risco exigem auditoria reforçada e relatório público de impacto algorítmico;

  • Criação do Comitê Nacional de IA do Judiciário (CNIAJ).

Para o advogado, a regra de ouro está no segundo item: nenhuma dessas ferramentas decide. Elas classificam, agrupam, minutam e sugerem — quem assina é o juiz. Se um dia você suspeitar de decisão automatizada sem supervisão, a Resolução 615 é o fundamento da impugnação.

O que muda na prática de quem advoga

1. A triagem do seu recurso é algorítmica. No STF, o Victor classifica o recurso extraordinário por tema de repercussão geral; no STJ, o Athos agrupa por similaridade. A consequência prática: clareza estrutural virou estratégia processual. Peça bem organizada, com o tema identificado nos termos que o tribunal usa, atravessa a triagem com menos ruído. (Orientações de mercado sugerem até citar o nome literal do tema de repercussão — é dica de prática, não posição oficial dos tribunais.)

2. A minuta que o juiz recebe pode ter nascido de IA. Com o Galileu em todos os TRTs e o Logos no STJ, a primeira versão de sentenças e decisões cada vez mais é sugerida por máquina e validada por humano. Isso torna os precedentes que alimentam esses sistemas ainda mais decisivos — e reforça o valor de conhecer a jurisprudência dominante do órgão.

3. Tentar manipular a IA do tribunal é infração — e já custou caro. Em 2026, duas advogadas foram condenadas a multa de 10% do valor da causa (~R$ 84 mil) no TRT-8 por esconder na petição, em fonte branca, um comando destinado ao Galileu (Migalhas). O chamado prompt injection processual saiu da teoria e virou condenação.

4. A régua vale para os dois lados. O mesmo Judiciário que usa IA cobra critério de quem a usa: a Recomendação 001/2024 da OAB exige revisão humana do advogado, e as multas por jurisprudência inventada já chegaram à casa dos milhões. A simetria é justa: máquina minuta, humano responde — dos dois lados do balcão. Se você quer usar IA no seu lado com o mesmo método que os tribunais exigem do lado deles, é isso que ensinamos na Formação em Inteligência Artificial para o Mundo Jurídico.

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PERGUNTAS FREQUENTES

O que os advogados mais perguntam

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O que é a MARIA do STF?

É o Módulo de Apoio para Redação com Inteligência Artificial — a primeira ferramenta de IA generativa do STF, lançada em dezembro de 2024. Ela minuta ementas e resumos de votos, resume relatórios de recursos e faz análise inicial de petições de Reclamação. É de uso interno dos gabinetes e servidores.

Advogado pode usar a MARIA?

Não. A MARIA é ferramenta interna do STF — não há acesso público, chat ou aplicativo para advogados. O chatbot de atendimento ao cidadão que o STF mantém em outros canais é uma ferramenta distinta.

Quais tribunais brasileiros usam IA hoje?

Praticamente todos os grandes: o STF tem MARIA, Victor, VitórIA e RAFA; o STJ tem Athos e Logos; a Justiça do Trabalho usa o Galileu nos 24 TRTs. No total, a plataforma Sinapses do CNJ registrava 150 modelos de IA ativos de 29 tribunais em abril de 2026, e 45,8% dos tribunais já usam IA generativa.

A IA do tribunal pode decidir meu processo?

Não. A Resolução CNJ 615/2025 veda decisão exclusivamente automatizada e exige supervisão humana efetiva em todos os sistemas. As ferramentas classificam, agrupam e minutam — a decisão é sempre assinada por um humano.

O que é o Galileu da Justiça do Trabalho?

Uma IA que sugere minutas de sentença com base em precedentes, validada pelo magistrado. Nasceu no TRT-4 e foi autorizada para todos os 24 TRTs em 2025. Foi contra ele que ocorreu o caso mais famoso de prompt injection processual do país — que terminou em multa de ~R$ 84 mil para as advogadas.

Como a IA dos tribunais muda a forma de escrever peças?

Clareza estrutural virou estratégia: a triagem algorítmica (Victor, Athos) lê a peça antes do humano, então organização, identificação correta do tema e objetividade reduzem ruído. E jamais tente instruir ou manipular a IA do tribunal — já é infração punida com multa.

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Leo Toco

Fundador do Jurídico Ágil, professor e consultor de IA e Gestão Ágil para o mercado jurídico. Mais de 15.000 alunos e 300+ agentes jurídicos criados.

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