Criar um GPT jurídico leva dez minutos: você abre o criador, descreve o que o assistente faz, ajusta as instruções e sobe os arquivos de conhecimento. O que quase ninguém faz é a parte que realmente importa. Um estudo que testou mais de 200 GPTs conseguiu extrair as instruções em 97,2% dos casos e os arquivos anexados em 100%. Traduzindo para a nossa realidade: aquilo que você põe dentro de um GPT publicado, qualquer pessoa que converse com ele pode tirar de lá. Este guia ensina a construir o assistente — e a construir sem entregar o acervo do escritório junto.
O que é um GPT (e o que mudou até 2026)
GPT personalizado é o ChatGPT com um papel fixo, regras próprias e uma base de conhecimento sua. Em vez de reexplicar o contexto toda vez, você configura uma vez: “você é assistente de um escritório trabalhista, responde neste formato, segue este modelo de peça, nunca inventa jurisprudência”.
Em julho de 2026 o produto segue firme: o criador está em chatgpt.com/gpts, a GPT Store continua no ar e o modelo por trás avançou — o GPT-5.6 passou a ser o principal do Plus em 9 de julho de 2026. Na prática, o mesmo GPT que você criou em 2024 ficou mais capaz sem você mexer nele.
Quem pode criar:
Plano | Preço (jul/2026) | Cria GPT? | Usa GPT? |
|---|---|---|---|
Free | US$ 0 | Não | Sim, dentro do limite de mensagens |
Go | R$ 39,99/mês no Brasil | Não listado entre os planos de criação | Sim |
Plus | US$ 20/mês | Sim | Sim |
Business | ~US$ 25/mês por assento | Sim | Sim |
Enterprise | Sob consulta | Sim | Sim |
A criação exige plano pago — Plus, Business ou Enterprise (OpenAI). Usar um GPT que já existe funciona até no plano gratuito, o que explica por que faz sentido um escritório ter um criador e vários usuários.
O passo a passo
Abra o criador. Menu lateral → Explorar GPTs → Criar. A aba Create conversa com você; a aba Configure é onde está o controle de verdade. Use a segunda.
Nomeie pela tarefa, não pelo charme. “Triagem de petição inicial trabalhista” vale mais que “Dr. Robô”. Você vai ter vários, e vai precisar achá-los.
Escreva as instruções. É o coração do GPT (detalhes na próxima seção).
Suba o conhecimento. Até 20 arquivos por GPT, 512 MB cada e até 2 milhões de tokens por documento de texto (OpenAI). Aqui mora o risco — leia a seção de sigilo antes de arrastar qualquer arquivo.
Escolha as capacidades. Navegação na web, interpretador de código, geração de imagem. Desligue o que a tarefa não pede: capacidade sobrando é caminho de erro sobrando.
Teste com caso real e publique como privado. O painel de teste fica ao lado. Publique Somente eu ou Qualquer pessoa com o link — a Store pode esperar.
Instruções que funcionam
A diferença entre um GPT que ajuda e um que irrita está em cinco blocos. Um esqueleto que funciona bem no jurídico:
Papel: quem ele é e para quem trabalha. “Você assiste advogados de um escritório de direito do consumidor no Brasil.”
Tarefa: o que ele faz, em uma frase. “Você faz a triagem de petições iniciais e devolve um resumo estruturado.”
Formato: exatamente como responder. “Responda sempre em: Partes · Pedidos · Fundamentos · Prazos · Riscos · Documentos ausentes.”
Regras: os limites inegociáveis. “Nunca cite jurisprudência que não esteja nos arquivos. Se não souber, diga ‘não encontrei’. Não sugira estratégia processual.”
Fonte: o que consultar. “Use os modelos anexados como padrão de redação; ignore seu conhecimento geral quando conflitar com eles.”
A regra que mais economiza dor é a do “não sei”. Modelo de linguagem tende a preencher lacuna — e no Direito, lacuna preenchida vira precedente inventado. Mandar dizer “não encontrei” é instrução simples com efeito enorme.
Se o seu objetivo é ter agentes prontos sem construir do zero, vale conhecer a nossa biblioteca de agentes jurídicos: são assistentes já configurados por categoria, prontos para usar no ChatGPT e no Gemini.
O erro de sigilo que quase todos cometem
Trate tudo que entra num GPT publicado como potencialmente público. Não é alarmismo: no estudo já citado, com mais de 200 GPTs testados, a extração do prompt de sistema teve 97,2% de sucesso e o vazamento dos arquivos de conhecimento, 100% (arXiv 2311.11538). Existem repositórios públicos catalogando instruções extraídas de GPTs populares. Um pedido bem construído basta.
Some-se a isso o segundo fato, sobre treinamento: em contas pessoais (Free, Plus, Pro), os seus dados são usados para treinar o modelo por padrão — o desligamento existe, mas é manual, em Configurações → Controles de dados (OpenAI). Já nos planos Business, Enterprise, Edu e na API, o padrão é o oposto: não treinam, salvo opt-in (OpenAI). Para um escritório, essa diferença justifica sozinha o plano corporativo.
E há um terceiro fato, que quase ninguém acompanhou: por decisão judicial no litígio do New York Times contra a OpenAI, a empresa foi obrigada a preservar e produzir uma amostra de 20 milhões de conversas desidentificadas — e em julho de 2026 o grupo de jornais pediu sanções alegando que a OpenAI dificultou a busca (OpenAI). É litígio americano sobre amostra sem identificação, não vazamento de sigilo. Mas ensina algo prático: “eu apaguei a conversa” não é garantia absoluta quando há disputa judicial em curso.
As regras que resolvem, na prática:
Modelo de peça, sim. Caso de cliente, não. Conhecimento do GPT é para o que é seu e reutilizável — seu padrão de redação, seus checklists, súmulas, legislação. Nunca para o processo de fulano.
Anonimize antes. Se precisa de um caso como exemplo, troque nomes, CPFs e valores. A Recomendação 001/2024 da OAB exige confidencialidade, revisão humana e comunicação ao cliente sobre o uso de IA — e a LGPD não abre exceção para “eu só colei no chat”.
Publicado = exposto. Vai publicar na Store? Assuma que as instruções são públicas. Se elas contêm o seu diferencial, mantenha o GPT privado.
Escritório usa plano de escritório. Business ou Enterprise, onde o não-treinamento é o padrão.
Vale registrar também um movimento fresco do outro lado do balcão: em 13 de julho de 2026 a OAB lançou o OpenDetector, ferramenta gratuita para identificar conteúdo gerado por IA em peças (OAB). O recado do ambiente é claro: usar IA é esperado; entregar texto de IA sem revisão, não.
As alternativas (e onde elas ganham)
Ferramenta | Cria de graça? | Diferencial |
|---|---|---|
Gems (Google Gemini) | Sim, em todos os planos, inclusive o gratuito | O caminho mais barato para começar |
Projects (Claude) | Sim — até 5 no plano gratuito, 30 MB por arquivo | Melhor para trabalhar com documentos longos |
Skills (Claude) | Sim, nos planos pagos | Instruções que o modelo carrega sozinho quando são relevantes; virou padrão aberto em dez/2025 |
Copilot Studio (Microsoft) | Não — cobrança por consumo | Faz sentido se o escritório já vive no ecossistema Microsoft |
Se você nunca criou nada disso, comece pelos Gems: são gratuitos até no plano free do Gemini (Google), o que remove a barreira do teste. Se o seu trabalho gira em torno de documentos longos, os Projects do Claude tendem a servir melhor. A escolha entre os modelos por trás dessas ferramentas é outra conversa — que fizemos em qual a melhor IA para advogados.




