IA no Direito do Trabalho é, antes de tudo, a IA do outro lado do balcão: a Justiça do Trabalho foi o ramo que mais cedo e mais fundo colocou inteligência artificial dentro do gabinete. O Galileu, criado pelo TRT-4, lê a inicial e a contestação e sugere a minuta da sentença em todos os TRTs do país; em julho de 2026 ganhou um agente que prepara sozinho a minuta de embargos de declaração. No TST, o Bem-te-vi tria e agrupa recursos por tema desde 2018, e o Águia resume documentos e rascunha minutas. É também o ramo em que os primeiros casos brasileiros de prompt injection em petição foram punidos.
Este é o quarto guia da série "IA por área do Direito" — depois do tributário, dos contratos e do previdenciário. Eu não sou advogado — sou de tecnologia, com mais de dez anos no mercado jurídico — e o trabalhista é a área em que "escrever para ser lido por máquina" deixou de ser metáfora.
A IA do gabinete trabalhista: Galileu, Bem-te-vi e Águia
A Justiça do Trabalho opera hoje com três ferramentas de IA nomeadas, em dois níveis.
Ferramenta | Onde | O que faz | Desde |
|---|---|---|---|
Galileu | Todos os TRTs (autorização nacional do CSJT) | Leitura automática da inicial e da contestação; organiza as informações e sugere a minuta da sentença com os tópicos em ordem lógica, com jurisprudência e decisões anteriores | Testes no TRT-4 em 2023; uso nacional autorizado em 2025 (TRT-4) |
Galileu — agente de embargos | TRT-4, TRT-2 e TRT-19 no desenvolvimento | Agente que conduz sozinho a preparação da minuta de embargos de declaração: seleciona peças dos autos, organiza as questões, pesquisa jurisprudência e modelos do gabinete, redige preservando o estilo do magistrado — "jamais prescindindo da revisão humana", nos termos da Resolução CNJ 615/2025 | 16 de julho de 2026 (TRT-4) |
Bem-te-vi | TST | Triagem e agrupamento automático de processos com tema idêntico, por aprendizado de máquina, para decisão em lote; verificação de tempestividade | Primeiro módulo em outubro de 2018 (TST) |
Águia | TST | Resumos de documentos processuais e minutas, inspirado no Galileu | — |
O que isso significa, em uma frase: na Justiça do Trabalho, o primeiro leitor da sua petição é um sistema — e, no segundo grau, o primeiro leitor do seu recurso é um classificador que decide em que lote ele cai. O panorama do que o Judiciário usa em todos os ramos está em IA no Judiciário; aqui interessa o que muda na peça trabalhista.
O que muda na sua peça quando o juiz minuta com IA
Se o Galileu lê a inicial e a contestação para propor a sentença por tópicos, a peça que chega organizada por tópicos é a peça que o sistema processa melhor — e a que chega diluída é a que vira uma versão pior de si mesma na minuta. Cinco ajustes concretos:
Um pedido por tópico, com título que diz o que é. "Horas extras — período de 03/2024 a 02/2026 — fundamento art. 59 da CLT" processa melhor do que "DAS HORAS EXTRAS" seguido de quatro páginas.
Fatos com data, valor e documento. O sistema extrai o que é estruturado. "Trabalhava além do horário" não vira nada; "jornada das 8h às 20h, de segunda a sábado, conforme cartões de ponto de fls. X" vira tópico.
Fundamentação com dispositivo e julgado conferíveis. É o que a máquina lê com precisão — e o que ela não consegue inventar a seu favor.
Contestação que responde tópico a tópico. Se a inicial tem oito pedidos, a contestação que segue a mesma ordem é a que o sistema pareia certo.
Sem instrução escondida. Este merece seção própria.
Prompt injection: a Justiça do Trabalho puniu primeiro
Os primeiros casos brasileiros de punição por prompt injection em petição — instrução escondida no texto, dirigida à IA do tribunal — aconteceram na Justiça do Trabalho: a 9ª Vara do Trabalho de São Paulo multou dois advogados em 10 salários mínimos por comando oculto numa contestação dirigido ao Galileu; o TRT-8 já havia aplicado R$ 84 mil num caso semelhante; e o TRT-20 multou uma empresa em 5% por precedente inventado por IA — um "voto" de 2015 sobre PIX, que só existe desde 2020.
A régua que a JT fixou é a mesma que vale em qualquer ramo, só que chegou antes: tentar enganar a máquina do juízo é enganar o juízo, e o nome disso continua sendo má-fé. E o outro lado também vale: se você recebe uma peça da parte contrária e vai passá-la pela sua IA, ela pode conter instrução escondida para a sua ferramenta. O detalhe dos casos, o mecanismo e a defesa estão em prompt injection no Direito.
O que a IA faz bem no trabalhista (do lado do escritório)
Do lado do escritório, o trabalhista é uma das áreas em que a IA mais rende — porque é volume, documento estruturado e cálculo conferível.
Ler cartões de ponto, holerites e o PJe inteiro e montar a linha do tempo da relação de emprego, com jornada, salário e verbas por competência. É o fluxo de análise de processo aplicado ao contrato de trabalho.
Rascunhar a inicial ou a contestação por tópicos, a partir da ficha do caso — no formato que o Galileu processa melhor.
Comparar a contestação com a inicial e listar o que não foi impugnado.
Preparar a audiência: roteiro de perguntas às testemunhas a partir dos fatos controvertidos, com a folha de cada documento.
Explicar ao cliente, empregado ou empresa, o que está em jogo em linguagem simples.
O que ela não faz: o cálculo trabalhista final sem conferência — reflexos, integrações e prescrição são onde a ferramenta arredonda; a avaliação da prova oral; e a estratégia de acordo. Cálculo com IA tem régua própria — memória de cálculo sempre, número redondo é suspeito — e está no guia de cálculos jurídicos com IA.
E a regra de sigilo: holerite, atestado, CTPS e exame são dado pessoal, boa parte sensível. Conta de trabalho ou anonimização; nunca conta gratuita de consumidor.
O que o escritório trabalhista faz com isso
Reescreva o modelo de inicial e de contestação por tópicos autossuficientes. É a mudança de maior efeito e custa uma tarde.
Monte a rotina de leitura de ponto e holerite com IA — linha do tempo por competência, divergências, documentos faltantes.
Passe toda peça recebida pelo detector antes de subir na sua IA. Instrução escondida é risco dos dois lados.
Confira todo cálculo contra a memória. Sempre.
Acompanhe o Galileu. O agente de embargos é o primeiro de uma série; cada peça que o gabinete passar a minutar com IA muda o que a sua peça precisa entregar.
O método completo, com as instruções prontas para inicial, contestação e audiência, está na Formação em Inteligência Artificial para o Mundo Jurídico.




