IA no navegador, dentro do PJe e do eproc, é o uso de extensões que colocam ChatGPT, Claude ou Gemini na mesma tela do processo — lendo os documentos, resumindo, minutando e às vezes preenchendo campos, sem que você baixe e suba arquivo. É o salto de produtividade mais visível de 2026 para quem faz contencioso, e traz uma característica que quase ninguém pesa antes de instalar: a extensão lê a aba inteira. Inclusive o que não era para ser lido.
Este guia mostra o que existe, o que cada tipo de extensão faz e as quatro perguntas que separam uso profissional de vazamento. Eu não sou advogado — sou de tecnologia, com mais de dez anos no mercado jurídico — e esta é a pergunta que mais chega na tutoria depois de "qual IA usar".
O que são as extensões de IA para PJe e eproc
Extensões de IA para sistemas processuais são complementos de navegador que enxergam o conteúdo da página do processo e o entregam a um modelo de linguagem — para resumir, extrair, minutar ou responder perguntas — sem sair da tela. Em 2026 há dois tipos, e a diferença entre eles decide o risco.
Tipo | O que faz | Exemplos em 2026 | Onde o dado vai |
|---|---|---|---|
Extensão oficial da IA | Coloca o assistente num painel lateral que lê, clica e navega em qualquer site — inclusive no tribunal | Claude in Chrome (Anthropic) | Para a conta da IA que você configurou |
Extensão de terceiro para o jurídico | Fica dentro da tela do PJe/eproc e envia documentos escolhidos para a IA que você preferir, ou gera minuta direto no editor do tribunal | Extensões listadas na Chrome Web Store voltadas a PJe/eproc, que encaminham documentos para ChatGPT, Claude, Gemini e outras, ou geram minutas | Para a IA escolhida e, dependendo do desenho, pelo servidor de quem fez a extensão |
A segunda linha é a que exige mais atenção. Uma extensão de terceiro é um intermediário: entre a tela do processo e a IA, há o código de alguém — e o trajeto do dado depende de como esse código foi escrito.
O que a extensão oficial faz (e o que o próprio fabricante diz do risco)
O Claude in Chrome, extensão oficial da Anthropic, permite ao Claude "ler, clicar e navegar em sites" a partir de um painel lateral; está disponível para os planos pagos (Pro, Max, Team e Enterprise), consegue preencher formulários, gerenciar várias abas, executar tarefas agendadas e ler o estado da página. Há um modo de aprovação automática em que o Claude revisa as próprias ações e pausa quando necessário, e administradores de organização podem definir listas de sites permitidos e bloqueados (Anthropic, Central de Ajuda).
O detalhe que importa está no mesmo documento: a Anthropic classifica a navegação por IA como "ainda arriscada", mesmo com os classificadores de segurança. Não é modéstia — é o reconhecimento de que uma IA que lê e age numa página pode ser induzida pelo conteúdo da própria página. É o mesmo mecanismo do prompt injection que já condenou advogados no Brasil, agora do lado de quem lê: se a peça da parte contrária contém uma instrução escondida e a sua IA está lendo a aba, ela pode obedecer.
"A extensão lê a aba inteira" — o que isso significa na prática
Quando você autoriza uma extensão a ler a página, ela lê tudo que está na página: o documento que você queria resumir e também o cabeçalho com o número do processo, as partes, os dados do seu login, as outras abas se você deu permissão para abas, o conteúdo de campos que ainda não foram enviados. A permissão de navegador não distingue "o que eu queria mostrar" de "o que estava na tela".
Três consequências concretas para quem trabalha em PJe e eproc:
Segredo de justiça não é filtro técnico. Processo em segredo aparece na tela do mesmo jeito que processo público; a extensão não sabe a diferença. Quem sabe é você — antes de ativar.
A conta em que a extensão roda decide o destino do dado. Extensão oficial ligada a uma conta gratuita de consumidor envia o conteúdo para uma conta que, por padrão, usa conversas para treinamento. Ligada a uma conta de trabalho, não. A extensão é a mesma; o destino, não.
O intermediário é um terceiro. Na extensão de terceiro, o trajeto tela → servidor da extensão → IA existe ou não existe conforme o código. Se a política do desenvolvedor não diz, você não sabe.
As quatro perguntas antes de instalar
As quatro perguntas são as mesmas que a área de tecnologia faz para qualquer software — só que aqui quase ninguém as faz, porque "é só uma extensão".
Quem fez e quem responde? Fabricante identificado (a extensão oficial da IA) ou desenvolvedor de terceiro? Se terceiro, tem nome, empresa, política de privacidade e canal de suporte?
Que permissões pede? "Ler e alterar todos os seus dados em todos os sites" é permissão para ler a aba do tribunal, do e-mail e do banco. Extensão para PJe deveria pedir acesso ao domínio do PJe.
Por onde o dado passa? Direto da tela para a IA que você configurou, ou pelo servidor de quem fez a extensão? Se a resposta não está escrita, a resposta é "não sei" — e "não sei" não serve para dado de cliente.
Em que conta a IA está? Corporativa ou de trabalho, que não treina por padrão. Nunca a gratuita de consumidor para conteúdo de processo.
Na dúvida em qualquer uma das quatro, a saída conservadora é a antiga: baixe o documento, anonimize o que for preciso e suba na IA em conta corporativa. Perde um minuto; não perde o controle.
Quando a extensão vale a pena (o uso que funciona)
A extensão vale a pena quando o volume é alto, o dado é público ou a conta é corporativa, e a tarefa é de leitura e organização — não de decisão. Três usos que vejo funcionar:
Triagem do dia. Abrir cada intimação e pedir "prazo, providência, urgência" — com conta corporativa e conferência do prazo no calendário oficial.
Fichamento em tela. Ficha do processo direto da aba, sem download — o fluxo completo está em como analisar um processo inteiro com IA.
Minuta de despacho de mero expediente, revisada antes de qualquer protocolo.
O que não funciona: deixar a extensão agir sozinha em processo de cliente, com aprovação automática ligada, em conta pessoal. É a soma dos três riscos numa configuração só.
O outro lado da tela usa a mesma coisa
Vale lembrar que o Judiciário já lê o seu recurso com IA — o CNJ liberou em agosto de 2026 quatro ferramentas para todos os tribunais, e o TJSP disponibilizou aos gabinetes uma ferramenta que lê os autos direto no eproc e no SAJ; o retrato está em as quatro IAs que o CNJ liberou. A extensão que lê a sua aba e a IA que lê o gabinete são a mesma tecnologia em lados opostos do balcão. A diferença entre elas é governança — e a sua é decidida por você, antes de clicar em "instalar".




