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Gestão e Operação

Aceitar ou recusar o caso: as 8 perguntas do intake antes de assinar a procuração

Aceitar ou recusar o caso: as 8 perguntas do intake antes de assinar a procuração

Por Leo Toco

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Atualizado em

EM RESUMO

Intake jurídico: as 8 perguntas antes de aceitar um caso, o que o Código de Ética diz sobre recusar, conflito de interesses e onde a IA ajuda (e não.

Intake jurídico é o processo de decidir, com método, se o escritório aceita um caso — antes de assinar a procuração, não depois. Aceitar todo caso que chega é o erro de gestão mais caro da advocacia pequena: o caso errado consome as horas do caso certo, quebra o caixa e, às vezes, vira problema ético. E recusar é legítimo — o próprio Código de Ética diz isso com todas as letras.

Este guia traz as oito perguntas que uso em sala, o que o Código de Ética estabelece sobre recusa e conflito, o parecer interno de uma página que documenta a decisão e o lugar exato em que a IA ajuda (e o que ela não decide). Eu não sou advogado — sou de tecnologia e gestão, com mais de dez anos no mercado jurídico — e o intake é a etapa que mais separa escritório que cresce de escritório que só trabalha.

Recusar é legítimo (o que o Código de Ética diz)

Recusar um caso é direito do advogado, e o Código de Ética e Disciplina da OAB trata disso em três lugares. O art. 4º, parágrafo único, chama de "legítima a recusa, pelo advogado, do patrocínio de causa" que contrarie sua convicção ou orientação anterior. O art. 2º, parágrafo único, VII, coloca entre os deveres do advogado "desaconselhar lides temerárias, a partir de um juízo preliminar de viabilidade jurídica" — ou seja, avaliar antes de aceitar não é opção, é dever. E o art. 9º exige informar o cliente "de modo claro e inequívoco" quanto aos riscos da pretensão e às consequências da demanda.

Há ainda as travas de conflito, que o intake existe para detectar antes que virem problema:

Artigo do Código de Ética

O que veda

Art. 19

Advogados da mesma sociedade representarem clientes com interesses opostos

Art. 20

Manter dois mandatos quando sobrevém conflito — cabe optar por um, renunciando aos demais

Art. 21

Postular contra ex-cliente sem resguardar o sigilo profissional

Art. 22

Patrocinar causa contra ato jurídico em cuja formação colaborou; ou atuar quando há conflito por intervenção anterior no assunto

Art. 14

Aceitar procuração de quem já tem patrono, sem conhecimento deste (salvo urgência)

Nenhuma dessas perguntas é feita por instinto. É por isso que existe o intake.

As 8 perguntas antes de aceitar

As oito perguntas cabem numa página e se respondem em vinte minutos — o tempo que separa um caso bem aceito de seis meses de arrependimento.

  1. É da nossa área? Não "dá para fazer"; é o que fazemos bem e repetimos. Caso fora da área custa o dobro de horas e entrega metade da qualidade.

  2. Há viabilidade jurídica preliminar? O juízo que o art. 2º exige: existe tese, existe prova possível, existe prazo em curso? Lide temerária se desaconselha — por dever.

  3. Há conflito? Com cliente atual, ex-cliente, parte que já atendemos, ato em que participamos (arts. 19 a 22). A resposta precisa ser dada pelo sistema, não pela memória.

  4. Quem é a parte contrária e o que ela pode fazer? Porte, agressividade, histórico. Caso pequeno contra parte grande é caso caro.

  5. O cliente consegue pagar — e como? Hora, êxito ou pacote, e se há caixa para a entrada — a régua de precificação por tipo de caso é assunto de guia próprio.

  6. Quanto vai custar para nós? Horas estimadas × custo da hora + despesas. Se ninguém sabe o custo da hora do escritório, esta pergunta não tem resposta — e é aí que se aceita caso com prejuízo.

  7. O cliente entende o risco? A conversa do art. 9º precisa acontecer antes, e ficar registrada. Cliente que ouviu "vai dar certo" na primeira reunião é cliente que vai reclamar.

  8. Queremos este cliente? A relação é de confiança recíproca (art. 10). Quem ameaça, quem mente na primeira conversa, quem já trocou três advogados — a resposta honesta vale mais que o contrato.

Três "não" nas perguntas 1, 2 e 3 encerram a conversa. Um "não" na 5 ou na 6 muda o modelo de honorários ou encerra. A 8 é a que ninguém escreve e todo mundo devia.

Curioso ou cliente: a triagem que vem antes do intake

Antes das oito perguntas há uma triagem mais curta, que separa curioso de cliente — e que pode e deve ser feita pela recepção ou por um assistente de IA, porque não exige juízo jurídico. Três perguntas:

  • Do que se trata? Em uma frase, na linguagem da pessoa.

  • Há prazo correndo? Intimação, audiência, vencimento — a resposta muda a urgência.

  • O que você espera que aconteça? É aqui que aparece o desalinhamento entre o que a pessoa quer e o que o Direito entrega.

Essa camada é a que descrevemos como triagem em atendimento por WhatsApp com IA: a IA conduz até a porta da sala; quem entra na sala — para as oito perguntas — é o profissional. E um lembrete que pega muita gente: a conversa de triagem já é sigilosa. O dever de sigilo não começa na procuração.

O parecer interno de uma página

Toda decisão de intake vira um parecer interno de uma página: as oito respostas, a recomendação (aceita / aceita com condição / recusa) e quem decidiu. Ele serve para três coisas:

  • Memória. Daqui a um ano, quando o caso der problema, alguém vai perguntar "por que aceitamos isto?". A resposta está ali.

  • Padrão. Depois de 30 pareceres, o escritório descobre que recusa sempre pelos mesmos motivos — e pode dizer isso na primeira mensagem, antes de gastar a reunião.

  • Treino. É o documento que ensina o estagiário a pensar como o sócio.

Onde guardar: no sistema do escritório, ligado ao contato — e nunca na pasta do cliente que ainda não é cliente. Dado de quem foi recusado é dado pessoal que você tratou; a LGPD vale para ele também, e o que a lei exige nesse papel está no guia de IA, LGPD e ANPD para advogados.

Onde a IA entra no intake (e onde não)

A IA entra em três pontos do intake e não entra no quarto.

Entra: na triagem (as três perguntas, com escalada para humano ao primeiro sinal de urgência ou de pedido de orientação); na verificação de conflito, consultando o sistema do escritório — é uma busca em base, exatamente o que ela faz bem; e na estimativa de horas, lendo o histórico de casos semelhantes.

Não entra: na decisão. Viabilidade jurídica, risco da parte contrária e "queremos este cliente?" são juízos de quem assina. A IA pode preparar o parecer; quem recomenda é o profissional.

E uma condição para o item "conflito": ela só funciona se o escritório tem um sistema em que os contatos, as partes e os casos estão registrados de forma consultável. Sem isso, a verificação de conflito continua sendo "acho que nunca atendemos essa empresa" — que é como os problemas dos arts. 19 a 22 acontecem. A decisão entre montar esse sistema ou contratar pronto está em sistema de gestão jurídica próprio ou de prateleira.

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PERGUNTAS FREQUENTES

O que os advogados mais perguntam

O que os advogados mais perguntam

Advogado pode recusar um caso?

Pode, e é legítimo pelo Código de Ética (art. 4º, parágrafo único). Mais do que isso: é dever do advogado "desaconselhar lides temerárias, a partir de um juízo preliminar de viabilidade jurídica" (art. 2º, parágrafo único, VII). Avaliar antes de aceitar não é opção.

O que é intake jurídico?

É o processo de decidir, com método e antes da procuração, se o escritório aceita um caso: área, viabilidade, conflito, parte contrária, capacidade de pagamento, custo, compreensão do risco pelo cliente e a relação de confiança. Termina num parecer interno de uma página.

Como verificar conflito de interesses antes de aceitar?

Consultando o sistema do escritório por cliente atual, ex-cliente, parte contrária e ato em que o escritório participou (arts. 19 a 22 do Código de Ética). Precisa ser busca em base registrada, não memória — e é uma das tarefas em que a IA ajuda, se o sistema existe.

Preciso avisar o cliente dos riscos antes de aceitar?

Sim. O art. 9º do Código de Ética exige informar o cliente "de modo claro e inequívoco" quanto aos riscos da pretensão e às consequências da demanda — e a conversa precisa ficar registrada.

A IA pode decidir se o escritório aceita o caso?

Não. Ela faz a triagem inicial, verifica conflito no sistema e estima horas pelo histórico. Viabilidade jurídica, risco e a decisão de aceitar são juízos de quem assina.

O que fazer com os dados de quem foi recusado?

Guardar o parecer no sistema, ligado ao contato — não na pasta de cliente. É dado pessoal tratado pelo escritório, sujeito à LGPD, e a conversa de triagem já era sigilosa desde o início.

Quantos casos um escritório deve recusar?

Não há número certo; há padrão. Depois de 30 pareceres de intake, o escritório descobre pelos quais motivos recusa sempre — e passa a dizer isso na primeira mensagem, antes de gastar a reunião.

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Fundador do Jurídico Ágil, professor e consultor de IA e Gestão Ágil para o mercado jurídico. Mais de 15.000 alunos e 300+ agentes jurídicos criados.

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