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Ética & Regulação

Advocacia digital: a categoria que a OAB está prestes a reconhecer

Advocacia digital: a categoria que a OAB está prestes a reconhecer

Por Leo Toco

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Atualizado em

EM RESUMO

O apoio ao reconhecimento da advocacia digital subiu de 67,3% para 78% depois do debate, em pesquisa da OAB com Stanford e IDP. O que muda se ela vier.

Advocacia digital é a categoria que a OAB começou a discutir formalmente em 2026: o reconhecimento de que atuar de forma remota, captar e atender clientes por meios digitais e trabalhar apoiado por tecnologia é uma forma legítima de exercer a profissão, e não um desvio dela. Em pesquisa com 18.668 respostas, o apoio ao reconhecimento subiu de 67,3% para 78% depois que os participantes debateram o tema.

Esse é o número mais interessante do ano sobre a advocacia brasileira, e quase ninguém comentou. Ele não mede adoção de ferramenta. Mede o que acontece com a opinião de um profissional do Direito quando ele para para estudar o assunto antes de opinar.

O que é advocacia digital, afinal

Não existe definição legal. O termo circula há anos para descrever um conjunto de práticas que hoje convivem sem moldura própria: atendimento e captação por meios digitais, atuação remota em processo eletrônico, prestação de serviço a clientes de outras praças, uso de tecnologia para escalar trabalho que antes era artesanal.

Nada disso é proibido. O problema é que tudo isso é hoje avaliado por normas escritas para um mundo presencial — as regras de publicidade, as de captação, as de organização do escritório. Reconhecer a categoria significaria admitir que existe uma forma de exercer a profissão cujas perguntas éticas são diferentes, e que merece regra própria em vez de analogia.

A maior consulta já feita à advocacia brasileira

Em agosto de 2026, a OAB divulgou os primeiros números de uma pesquisa conduzida com o Deliberative Democracy Lab, da Universidade de Stanford, e com o IDP. Foram cerca de 250 mil profissionais convidados e 18.668 respostas — pela escala, a maior consulta já feita à advocacia brasileira sobre inteligência artificial.

O desenho da pesquisa é o que a torna diferente. Depois da consulta ampla, cerca de 2.900 pessoas passaram por uma fase experimental e mais de 500 participaram de uma etapa de deliberação: receberam material, discutiram com pares e especialistas e só então responderam de novo. É o método de democracia deliberativa que dá nome ao laboratório de Stanford, conduzido pelos pesquisadores Nate Persily, Rob Reich e Thay Graciano, com Laura Schertel Mendes pelo IDP.

O número que muda a conversa: 67,3% para 78%

Antes da deliberação, 67,3% apoiavam o reconhecimento da advocacia digital. Depois, 78%. Onze pontos percentuais de diferença, com a mesma população, medida duas vezes.

Vale insistir no que isso quer dizer, porque é contraintuitivo para quem trabalha com comunicação. A resistência da advocacia à tecnologia costuma ser tratada como um traço de temperamento — conservadorismo, apego ao papel, medo do novo. O dado sugere outra coisa: boa parte da resistência é falta de informação, e ela cede quando a pessoa tem tempo e material para entender do que se trata.

Para quem ensina, vende ou implanta tecnologia no mundo jurídico, a conclusão prática é direta: o obstáculo não é convencer, é explicar. Argumento de urgência tende a endurecer a resistência; material que permite entender tende a dissolvê-la.

O outro número, e a leitura errada que já está circulando

A mesma pesquisa mostrou que, entre os participantes que declararam usar ferramentas de IA generativa, cerca de 77% apontaram o ChatGPT.

Esse número já apareceu por aí traduzido como 77% da advocacia usa IA. Não é isso. É a fatia do ChatGPT dentro do grupo que já usa — uma medida de concentração, não de adoção. O que ele revela é que a maioria de quem adotou IA adotou uma ferramenta só, sem comparar alternativas para o tipo de tarefa que faz. O placar completo, com as pesquisas separadas e suas bases, está em IA na advocacia em números.

O que mudaria se a categoria for reconhecida

Frente

Como é hoje

O que o reconhecimento abriria

Publicidade e captação

Regras pensadas para meios tradicionais, aplicadas por analogia ao digital

Critérios próprios para conteúdo, redes e anúncios

Atuação remota

Prática consolidada, sem moldura específica

Reconhecimento formal do atendimento a distância

Uso de tecnologia

Dever geral de zelo e sigilo

Parâmetros de supervisão e responsabilidade por ferramenta

Nada disso está decidido. A iniciativa integra o Plano Nacional de Integração de Inteligência Artificial na Advocacia, e a própria OAB informa que os resultados seguem em consolidação e serão divulgados na íntegra depois. Trate os números como leitura preliminar.

Por que isso importa para você agora

Porque a discussão sobre o que a advocacia digital pode fazer está acontecendo em paralelo com a discussão sobre o que as plataformas não podem fazer — e as duas vão se encontrar. Em agosto de 2026 a OAB também autorizou medidas judiciais contra empresas que exercem ato privativo sob rótulo de IA, assunto tratado em a IA pode advogar.

O profissional que entender essa fronteira antes dela ser fixada tem duas vantagens: opera com segurança agora e participa da conversa que define a regra. O mapa das normas que já valem está no guia da regulação da IA no Brasil.

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PERGUNTAS FREQUENTES

O que os advogados mais perguntam

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O que é advocacia digital?

É o termo usado para descrever o exercício da advocacia apoiado em meios digitais: atendimento e captação por canais online, atuação remota em processo eletrônico, prestação de serviço a clientes de outras praças e uso de tecnologia para escalar o trabalho. Não existe definição legal, e é justamente esse reconhecimento formal que está em discussão na OAB.

A OAB já reconheceu a advocacia digital?

Não. O tema foi levado a uma consulta nacional com apoio de Stanford e do IDP, cujos primeiros números foram divulgados em agosto de 2026. A própria OAB informa que os resultados seguem em consolidação e serão divulgados na íntegra depois.

Quantos advogados participaram da pesquisa da OAB com Stanford?

Cerca de 250 mil profissionais foram convidados e 18.668 responderam. Depois disso, aproximadamente 2.900 passaram por uma fase experimental e mais de 500 participaram de uma etapa de deliberação, em que discutiram o tema antes de responder novamente.

O apoio à advocacia digital cresceu quanto?

Subiu de 67,3% para 78% entre a resposta inicial e a resposta dada após a etapa de deliberação. A diferença de onze pontos sugere que parte relevante da resistência decorre de falta de informação, e não de rejeição de princípio.

É verdade que 77% dos advogados usam ChatGPT?

Não é essa a medida. Os cerca de 77% são a fatia do ChatGPT entre os participantes que declararam já usar ferramentas de IA generativa — é um dado de concentração dentro do grupo de usuários, não de adoção no conjunto da advocacia.

O que muda na prática se a categoria for reconhecida?

Principalmente a moldura ética. Hoje publicidade, captação e organização do trabalho digital são avaliadas por analogia com regras escritas para o mundo presencial. O reconhecimento abriria caminho para critérios próprios de publicidade digital, para o atendimento remoto e para parâmetros de supervisão no uso de ferramentas.

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Fundador do Jurídico Ágil, professor e consultor de IA e Gestão Ágil para o mercado jurídico. Mais de 15.000 alunos e 300+ agentes jurídicos criados.

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